Entre Avessos: o que atravessa
Atualizado: 24 de jul.

Entre Avessos: o que atravessa
Há algo em mim que sempre procura distância.
Uma avenida que se abre no meio da noite.
O horizonte visto de cima de uma ladeira.
A cidade por alguns instantes silenciosa.
Uma montanha que participa dos meus sonhos.
Talvez eu procure lugares de onde seja possível olhar para longe porque, às vezes, é assim que consigo voltar a enxergar o que está perto.
Sou atravessada por muitas coisas.
Pela escuta e pela palavra.
Pela filosofia e pela arte.
Pelo movimento da bicicleta, que devolve a cidade ao corpo.
Pelas plantas, pelos livros, pelas mulheres da minha história.
Pelo desejo de construir espaços onde a vida possa respirar de outras maneiras.
Também sou atravessada pelo cansaço, pelas perdas e por tudo aquilo que já não encontra lugar em mim.
Tenho aprendido que produzir vida para si não significa permanecer imune ao que acontece. Tampouco exige transformar cada dor em ensinamento ou cada recomeço em uma história bonita.
Às vezes, produzir vida é uma ação pequena.
Mudar um caminho.
Descansar antes de chegar ao limite.
Refazer uma casa, uma rotina, uma relação com o próprio corpo.
Encontrar pessoas com quem seja possível criar alegria.
Reconhecer um desejo e preparar, pouco a pouco, as condições para que ele exista.
Talvez cuidar de si seja também aprender a participar daquilo que nos atravessa.
Perceber o que nos diminui.
Escolher o que merece permanecer.
Criar passagem para aquilo que ainda não tem forma, mas já começa a pedir mundo.
Não chegamos intactas ao fim de nenhum caminho.
Mas podemos aprender, entre tantos atravessamentos, com quais deles ainda desejamos compor uma vida.


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